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Dá de comer (2023/2024)

Vídeo projetado sobre parede com filtro em papel kraft.


Sobre: Depois de desenhar algumas folhas deixadas pelas formigas, ocorreu um desejo de fazer um desenho de folha só que esse desenho seria da folha inteira, imaginando que elas poderiam reconhecer o desenho da folha, cortá-lo e levá-lo até o ninho para o fungo que elas cultivam. Fiz alguns desenhos de folhas de Magnólia - que é árvore que elas cortam aqui na rua de casa - e levei até o formigueiro para elas. Já tinha feito algo parecido com isso quando imprimi em fitotipia a fotografia da máquina de matar formigas e levei pra elas no formigueiro artificial lá em São Paulo. Agora era diferente, o que levaria pra elas não era o “inimigo”, estava levando um desenho meu feito a partir da observação cotidiana com elas. A primeira vez que levei o dia estava se pondo e algumas formigas já estavam pela calçada aparentemente em busca de folhas para cortar - será que é só isso que as formigas fazem quando elas saem do formigueiro? Deixei o desenho próximo a elas e comecei a filmar. Algumas seguiram seu movimento sem se preocupar com a minha presença ali e ignoraram a folha. Apenas uma formiga se aproximou, percorreu o desenho e em uma das laterais dele começou a morder. Talvez ela estivesse analisando o que era aquilo com sua mandíbula. Aqui estamos acostumados a uma expressão “ver com as mãos”, suponho que aquela formiga estava vendo com a boca. Pensei que ela fosse iniciar o corte, mas ela não o fez. Cheguei a pensar que ela não teria feito porque o desenho tinha uma gramatura alta - o papel era muito grosso - isso me mobilizou a fazer vários outros desenhos em papel de gramatura menor, o que poderia facilitar o trabalho dela de cortar. Hoje olhando novamente o vídeo acredito que ela não cortou o desenho por falta de interesse nele. Suas mandíbulas são capazes de cortar sementes, algo bem mais duro e resistente do que aquele papel. Ela percorreu toda a lateral do desenho com sua mandíbula, hora ou outra chegou a levantar um pouco do desenho, logo saiu e não voltou mais. Na montagem do trabalho durante a “Ocasião 1: desformigar” o projetor foi colocado no chão e a imagem ficou abaixo dos degraus da escada. Em um pedaço de papel kraft fiz um corte redondo no centro do papel de coloquei ele em frente ao feixe de luz que sai do projetor, criou-se uma máscara de um buraco para aquela imagem. Esse trabalho de vídeo tenho chamado “Dá de comer”, são fragmentos de desencontros das vezes que levei os desenhos para as formigas e elas não quiseram cortá-lo. Achei por um momento que esse trabalho só poderia existir no momento em que eu conseguisse êxito naquilo que “planejei”: filmar as formigas cortando um desenho. Porém, em algumas conversas com a amiga e também artista Maria Clara, ela apontou sobre a possibilidade de assumir esse encontro “fracassado” com as formigas. O trabalho já existe mesmo quando esse meu desejo não se realiza, porque o não cortar das formigas também é uma resposta delas. As formigas “preferiram não” cortar.






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